Nós somos como dois irmãos
Que brigam pra depois chorar
Vivemos como dois cristãos
Pecando pra depois rezar
Nós somos como o sol e a flor
Bem juntos pra se completar
Eu, sol já sem muito calor
Você é flor a perfumar
Nós somos como dois botões
Sem casas pra poder viver
Vivemos como dois tostões
Juntinhos pra poder valer
No fundo somos dois guris
Que brigam sem saber por quê
Você só faz gostar de mim
E eu de você
Silvio César
Foi pensando em você
Que eu escrevi
Esta triste canção
Foi pensando em você
Que é meu tormento
E a minha paixão
É nestes versos
Que eu quero dizer
O amor profundo
Que eu sinto por você
Seu olhar me fascina
Oh, como eu vivo a sofrer!
Quase que eu disse agora
O seu nome sem querer
Não quero que zombe
De nós toda esta gente
Mas é por sua causa
Que eu estou tão diferente
Bem pertinho de mim ela está
Me ouvindo cantar
Bem juntinho dela eu estou
Morrendo de amor
Mirabeau / Jorge Gonçalves
Quantas noites não durmo
A rolar-me na cama
A sentir tantas coisas
Que a gente não pode explicar quando ama
O calor das cobertas
Não me aquece direito
Não há nada no mundo
Que possa afastar
Este frio em meu peito
Volta!
Vem viver outra vez ao meu lado
Não consigo dormir sem teus braços
Pois meu corpo está acostumado
Ah! você está vendo só
Do jeito que eu fiquei
E que tudo ficou
Uma tristeza tão grande
Nas coisas mais simples que você tocou
A nossa casa, querida
Já estava acostumada guardando você
As flores na janela sorriam, cantavam
Por causa de você
Olhe, meu bem
Nunca mais nos deixe, por favor
Somos a vida e o sonho
Nós somos o amor
Entre, meu bem, por favor
Não deixe o mundo mau
Lhe levar outra vez
Me abrace simplesmente
Não fale, não lembre
Não chore, meu bem
Lupicínio Rodrigues – Tom Jobim / Dolores Duran
Quis você pra meu amor
E você não entendeu
Quis fazer você a flor
De um jardim somente meu
Quis lhe dar toda a ternura
Que havia dentro em mim
Você foi a criatura
Que me fez tão triste assim
Ah, e agora você passa e eu acho graça!
Nessa vida tudo passa
E você também passou
Entre as flores
Você era a mais bela
Minha rosa amarela
Que desfolhou, perdeu a cor
Tanta volta o mundo dá
Nesse mundo eu já rodei
Voltei ao mesmo lugar
Onde um dia eu encontrei
Minha musa, minha lira
Minha doce inspiração
Seu amor foi a mentira
Que quebrou meu violão
Seu jogo é carta marcada
Me enganei, não sei por quê
Sem saber que eu era nada
Fiz meu tudo de você
Pra você fui aventura
Você foi minha ilusão
Nosso amor foi uma jura
Que morreu sem oração
Ataulpho Alves – Carlos Imperial
Inês saiu dizendo que ia
Comprar pavio pro lampião
Pode me esperar, Mané
Que eu já volto já
Acendi o fogão Botei água pra esquentar
E fui pro portão só pra ver Inês chegar
Anoiteceu e ela não voltou
Fui pra rua feito louco
Pra saber o que aconteceu
Procurei no hospital
Procurei na central e no xadrez
Andei a cidade inteira
E não encontrei Inês
Voltei pra casa triste demais
O que Inês me fez não se faz
Pois no chão bem perto do fogão
Encontrei um papel escrito assim
Pode apagar o fogo, Mané
Que eu não volto mais
Adoniran Barbosa
Lembro um olhar
Lembro um lugar
Teu vulto amado
Lembro um sorriso e o paraíso
Que tive ao teu lado
Lembro a saudade
Que hoje invade os dias meus
Para o meu mal
Lembro afinal
Um triste adeus
Sou agora no mar desta vida
Um barco a vagar
Onde está teu olhar?
Onde está teu sorriso
E aquele lugar?
Eu devia sorrir, eu devia,
Para o meu padecer ocultar…
Mas diante de tantas lembranças
Me ponho a chorar
Benil Santos e Raul Sampai
Dentro da noite
Ouço um piano tocando a sonata
Evocativa do amor que outrora perdi
Fere-me o peito a canção, e esta dor que me mata
Aumenta a grande falta que sinto de ti
Vem na dolente sonata a lembrança tão triste
De uma visão que se afasta
A me acenar
Ias tão feliz que não viste
O teu adeus me magoando
Na solidão a sonata
É minha alma chorando
O desalento da noite
Que é sem luar
Fred Chateaubriand / Vinícius de Carvalho
O rio de Piracicaba
Vai jogar água pra fora
Quando chegar a água
Dos olhos de alguém que chora
Lá no bairro onde eu moro
Só existe uma nascente
A nascente dos meus olhos
Já formou água corrente
Pertinho da minha casa
Já formou uma lagoa
Com lágrimas dos meus olhos
Por causa de uma pessoa
O rio de Piracicaba…
Eu quero apanhar uma rosa
Minha mão já não alcança
Eu choro desesperado
Igualzinho a uma criança
Duvido alguém que não chore
Pela dor de uma saudade
Eu quero ver quem que não chora
Quando ama de verdade
Lourival Santos, Piraci e Tião Carreiro
Deixa a cidade, formosa morena
Linda pequena, volta ao sertão
Beber a água da fonte que canta
Que se levanta do meio do chão
Se tu nasceste cabocla cheirosa
Cheirando a rosa no peito da terra
Volta pra vida serena da roça
Daquela palhoça no alto da serra
E a fonte a cantar: chuá, chuá
E a água a correr: chuê, chuê
Parece que alguém que cheio de mágoa
Deixasse, quem há de dizer, a saudade
No meio das águas rolando também
A lua branca de luz prateada
Faz a jornada no alto do céu
Como se fosse uma sombra altaneira
Da cachoeira, fazendo escarcéu
Quando essa luz na altura distante
Loira ofegante no poente a cair
Dá-me essa trova que o pinho descerra
Que eu volto pra serra que eu quero partir
Pedro Sá Pereira e Ary Pavão
Ô Antonico
Vim lhe pedir um favor
Que só depende de sua boa vontade
É necessária uma viração pro Nestor
Que está vivendo em grande dificuldade
Ele está mesmo dançando na corda bamba
Ele é aquele que na escola de samba
Toca cuíca, toca surdo e tamborim
Faça por ele como se fosse por mim
Até muamba já fizeram pro rapaz
Porque no samba ninguém faz o que ele faz
Eu hei de vê-lo muito bem
Se Deus quiser
E agradeço pelo que você fizer
Ismael Silva
Meu Deus, eu ando
Com o sapato furado
Tenho a mania
De andar engravatado
A minha cama
É um pedaço de esteira
Uma lata velha
É que me serve de cadeira
Minha camisa
Foi encontrada na praia
A gravata foi achada
Na Ilha da Sapucaia
Meu terno branco
Parece casca de alho
Foi a deixa de um cadáver
Acidente de trabalho
O meu chapéu
Foi de um pobre surdo e mudo
As botinas foi de um velho
Da revolta de Canudos
Quando eu saio a passeio
Mulher dama sai falando
Eu me viro aqui na vida
E o malandro vai gozando
A refeição é que é interessante
Na tendinha do Tinoco, no pedir eu sou constante
E o português, meu amigo sem orgulho
Me sacode um caldo grosso, carregado no entulho
João da Bahiana, Patricio Teixeira
Quanto eu canto é para aliviar meu pranto
E o pranto de quem já tanto sofreu
Quando eu canto, estou sentindo a luz de um santo
Estou ajoelhando aos pés de Deus
Canto para anunciar o dia
Canto para amenizar a noite
Canto pra denunciar o acoite
Canto também contra a tirania
Canto porque numa melodia
Acendo no coração do povo
A esperança de um mundo novo
E a luta pra se viver em paz
Do poder da criação sou continuação
E quero agradecer
Foi ouvida a minha súplica
Mensageiro sou da música
O meu canto é uma missão
Tem força de oração
E eu cumpro o meu dever
Há os que vivem a chorar
Eu vivo pra cantar
E canto pra viver
Não…
Ninguém faz samba só porque prefere
Força nenhuma no mundo interfere
Sobre o poder da criação
Não…
Não precisa estar nem feliz, nem aflito
Nem se refugiar em lugar mais bonito
Em busca da inspiração
Não…
Ela é uma luz que chega de repente
Com a rapidez de uma estrela cadente
Que acende a mente e o coração
É, faz pensar
Que existe uma força maior que nos guia
Que está no ar
Bem no meio da noite
Ou no claro do dia
Chega a nos angustiar
E o poeta se deixa levar por essa magia
E um verso vem vindo
E vem vindo uma melodia
E o povo começa a cantar
La, laiá, la, laiá,
La, laiá, la, laiá
Joao Nogueira – P. C. Pinheiro
Vivia no litoral africano
Uma régia tribo ordeira cujo rei era símbolo
De uma terra laboriosa e hospitaleira
Um dia, essa tranqüilidade sucumbiu
Quando os portugueses invadiram
Capturando homens
Para fazê-los escravos no Brasil
Na viagem agonizante
Houve gritos alucinantes
lamentos de dor
Ô, ô, ô adeus, Baobá, ô, ô, ô
Ô, ô, ô adeus, meu Bengo, eu já vou
Ao longe, Minas jamais ouvia
Quando o rei mais confiante
Jurou à sua gente que um dia os libertaria
Chegando ao Rio de Janeiro
No mercado de escravos
Um rico fidalgo os comprou
E para Vila Rica os levou
A idéia do rei foi genial
Esconder o pó de ouro entre os cabelos
Assim fez seu pessoal
Todas as noites quando das minas regressavam
Iam à igreja e suas cabeças banhavam
Era o ouro depositado na pia
E guardado em outro lugar com garantia
Até completar a importância
Para comprar suas alforrias
Foram libertos cada um por sua vez
E assim foi que o rei
Sob o sol da liberdade trabalhou
E um pouco de terra ele comprou
Descobrindo ouro enriqueceu
Escolheu o nome de Francisco
E ao catolicismo se converteu
No ponto mais alto da cidade, Chico Rei
Com seu espírito de luz
Mandou construir uma igreja
E a denominou
Santa Efigênia do Alto da Cruz
Geraldo Babão / Djalma Sabiá / Binha
Samba, ó samba
Tem a sua primazia
Em gozar de felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade
Passava noite, vinha dia
O sangue do negro corria
Dia a dia
De lamento em lamento
De agonia em agonia
Ele pedia o fim da tirania
Lá em Vila Rica
Junto ao largo da Bica
Local da opressão
A fiel maçonaria, com sabedoria
Deu sua decisão
Com flores e alegria
Veio a abolição
A independência Laureando
O seu brasão
Ao longe soldados e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou
Essa brisa que a juventude afaga
Essa chama
Que o ódio não apaga pelo universo
É a evolução em sua legítima razão
Samba, ó samba
Tem a sua primazia
Em gozar de felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade
Ô, ô, ô, ô
Liberdade senhor!
Silas de Oliveira, Mano Décio e Manoel Ferreira