O mundo me condena
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome
Mas a filosofia
Hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim
Não me incomodo
Que você me diga
Que a sociedade é a minha inimiga
Pois cantando nesse mundo
Vivo escravo do meu samba
Muito embora vagabundo
Quanto a você
Da aristocracia
Que tem dinheiro
Mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava dessa gente
Que cultiva a hipocrisia
Minha viola
Tá chorando com razão
Com saudade da marvada
Que roubou meu coração
Eu não respeito
Cantadô que é respeitado
Que no samba improvisado
Me quiser desafiá
Inda outro dia
Fui cantar no galinheiro
E o galo a noite inteira
Sem vontade de cantar
Nesta cidade
Todo mundo se acautela
Com a tal de febre amarela
Que não cansa de matar
E a dona Chica
Que anda atrás de mal conselho
Pinta o corpo de vermelho
Pro amarelo não pegar
Minha viola…
Eu já jurei
De não jogar com seu Saldanha
Que diz sempre que me ganha
No tal jogo do bilhar
Sapeca o taco
Nas bolas de tal maneira
Que eu espero a noite inteira
Pras bolas carambolá
Conheço um velho
Que tem a grande mania
De fazer economia
Pra modelo dos seus fio
Não usa prato
Nem moringa, nem caneca
E quando senta é de cueca
Pra não gastá os fundío
Minha viola…
Eu tive um sogro
Cansado dos regabofe
Que procurou o Voronoff
Doutô muito creditado
E andam dizendo
Que o enxerto foi de gato
Pois ele pula de quatro
Miando pelos telhado
Aonde eu moro
Tem o bloco dos filante
Que quase a todo instante
Um cigarro vem filá
E os danados
Vem bancando inteligente
Diz que tão com dor de dente
Que o cigarro faz passar
Minha viola
Tá chorando com razão
Com saudade da marvada que roubou meu coração
Noel Rosa
Martinho da Vila e Mart’nália
Pega na saca, tira a jaca
Leva a faca, que a macaca
Sai da estaca e te ataca à traição
E ano brinca não…
Que ela hoje está com o cão!
Seu Fortunato, olha o rato
No sapato e o seu gato
Que é de fato, foi pro mato com o meu cão
E não brinca não…
Que vais ficar de pé no chão!
Com sua farda, toda parda
Bem galhada, na vanguarda
De espingarda, vem o guarda no pifão
E não brinca não…
Que ele está cheio de razão!
Dona Adalgisa só me avisa
Só me frisa que a camisa
Não é lisa, não precisa de botão
E não brinca não…
Que não tá paga a prestação!
Eu bem dizia que eu sabia
Que a Maria fazia
Na sacristia cortesia ao sacristão
E não brinca não…
Que até o padre é gavião
Noel Rosa
Martinho da Vila
Deixa de arrastar o teu tamanco
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco
Compra sapato e gravata
Joga fora essa navalha
Que te atrapalha
Com chapéu de lado deste rata
Da polícia quero que escapes
Fazendo samba-canção
Já te dei papel e lápis
Arranja um amor e um violão
Malando é palavra derrotista
Que só serve pra tirar
Todo o valor do sambista
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado
Seja breve, seja breve
Não percebi porque você se atreve
A prolongar sua conversa mole (que não adianta!)
Seja breve (conversa de teso!)
Não me amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve (seja, seja)
Eu me ajoelho e fico de mãos postas
Só pra ver você virar as costas
E quando vejo que você vai longe
Eu comemoro sua ausência com champanhe
Deus lhe acompanhe
Seja breve…
A sua vida nem você escreve
A além disse você tem mão leve
Eu só desejo é ver você nas grades
Pra dizer baixinho sem fazer alarde:
“Deus lhe guarde. Vá com Deus”
Seja breve…
Vou conservar a porta bem fechada
Com o cartaz: “É proibida entrada”
E você passa a ser pessoa estranha
Meu bolso fica livre dos ataques seus:
Graças a Deus!
Seja breve..
Queria ser pandeiro
Pra sentir o dia inteiro
Q tua mão na minha pele a batucar
Saudade do violão e da palhoça
Coisa nossa, coisa nossa
O samba a prontidão
E outras bossas
São nossas coisas
São coisas nossas
Malandro que não bebe
Que não come
Que não abandona o samba
Pois o samba mata a fome
Morena bem bonita lá na roça
Coisa nossa, coisa nossa
O samba a prontidão…
Baleiro, jornaleiro
Motorneiro, condutor e passageiro
Prestamista e vigarista
E o bonde que parece uma carroça
Coisa nossa, muito nossa!
O samba a prontidão…
Menina que namora
Na esquina e no portão
Rapaz casado com dez filhos, sem tostão
Se o pai descobre o truque dá uma coça
Coisa nossa, muito nossa
Noel Rosa
Martinho da Vila e Analimar Ventapane
Quando eu morrer
Não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela
Se existe alma
Se há outra encarnação
Que queria que a mulata
Sapateasse no meu caixão
Quando eu morrer
Não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela
Não quero flores
Nem coroa com espinho
Só quero “choro” de flauta
Com violão e cavaquinho
Meus inimigos
Que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram
Uma pessoa tão boa assi
Noel Rosa
Martinho da Vila e Aline Calixto
Quando o apito
Da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê
Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito tão aflito
Da buzina do meu carro?
Você no inverno
Sem meia vai pro trabalho
Não faz fé no agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você
Nos meus olhos você lê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente impertinente
Que dá ordens a você
Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe por quê
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Estes versos pra você
Noel Rosa
Martinho da Vila e Patrícia Hora
A noite estava estrelada
Quando a roda se formou
A lua veio atrasada
E o samba começou
Um tiro a pouca distância
Num espaço forte ecoou
Mas ninguém deu importância
E o samba continuou
Entretanto ali bem perto
Morria de um tiro certo
Um valente muito sério
Professor dos desacatos
Que ensinava aos pacatos
O rumo do cemitério
Chegou alguém apressado
Naquele samba animado
Que cantando assim dizia:
No século do progresso
O revólver teve ingresso
Pra acabar com a valentia
Um tiro a pouca distância
Num espaço forte ecoou
Mas ninguém deu importância
E o samba continuou
Noel Rosa
Martinho da Vila e Ana Costa
Lá no morro da Mangueira
Bem em frente à ribanceira
Um cruz a gente vê
Quem fincou foi a Rosinha
Que é cabrocha de alta linha
E nos olhos tem seu “não seu o quê”
Numa linda madrugada
Ao voltar da batucada
Pra dois malandros olhou a sorrir
Ela foi-se embora e os dois ficaram
Dias depois se encontraram
Pra conversar e discutir
Lá o no morro
Uma luz somente havia
Ela a lua que tudo assistia
Mas quando acabava o samba
Se escondia
Na segunda batucada
Disputando a namorada
Foram os dois improvisar
E como em toda façanha
Sempre um perde e outro ganha
Um dos dois parou de versejar
E perdendo a doce amada
Foi fumar na encruzilhada
Ficando horas em meditação
Quando o sol raiou foi encontrado
Na ribanceira estirado
Com um punhal no coração
Lá no morro
Uma luz somente havia
Era o sol quando o samba acabou
De noite não teve lua
Ninguém cantou
Noel Rosa
Martinho da Vila e Analimar Ventapane
Nosso amor que eu não esqueço
E que teve seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão
Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero seu beijo
Pois meu último desejo
Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você me diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação
Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei a sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim
Noel Rosa
Martinho da Vila e Maíra Freitas
Nasci no Estácio
E educada na roda da bamba
E fui diplomada na escola de samba
Sou independente conforme se vê
Nasci no Estácio
O samba é a corda, eu sou a caçamba
E não acredito que haja muamba
Que possa fazer gostar de você
Eu sou diretora da Escola do Estácio de Sá
E felicidade maior nesse mundo não há
Já fui convidada
Pra ser estrela do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair do Estácio é que é
O x do problema
Vem tem vontade
Que eu abandone o Largo do Estácio
Pra ser a rainha de um grande palácio
E dar um banquete uma vez por semana
Nasci no Estácio
Não posso mudar minha massa de sangue
Você pode crer que palmeira do mangue
Não vive na areia de Copacabana
Noel Rosa
Martinho da Vila e Aline Calixto
Não tenho medo de bamba
Na roda de samba
Eu sou bacharel (sou bacharel)
Andando pela batucada
Onde eu vi gente levada
Foi lá em Vila Isabel
Na Pavuna tem Turuna
Na Gamboa gente boa
Eu vou pra Vila
Aonde o samba é da coroa
Já saí de Piedade
Já mudei de Cascadura
Eu vou pra Vila
Pois quem é bom não se mistura
Não tenho medo de bamba
Na roda de samba
Eu sou bacharel (sou bacharel)
Andando pela batucada
Onde eu vi gente levada
Foi lá em Vila Isabel
Quando eu me formei no samba
Recebi uma medalha
Eu vou pra Vila
Pro samba do chapéu de palha
A polícia em toda a zona
Proibiu a batucada
Eu vou pra Vila
Onde a polícia é camarada
Cidade de amor e ventura
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação
Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração
Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher
Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Das noites de luar
Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu
Noel Rosa
Martinho da Vila