Sonhei
Que estava sonhando um sonho sonhado
O sonho de um sonho
Magnetizado
As mentes abertas
Sem bicos calados
Juventude alerta
Os seres alados
Sonho meu
Eu sonhava que sonhava
Sonhei
Que eu era o rei que reinava como um ser comum
Era um por milhares, milhares por um
Como livres raios riscando os espaços
Transando o universo
Limpando os mormaços
Ai de mim
Ai de mim que mal sonhava
Na limpidez do espelho só vi coisas limpas
Como uma lua redonda brilhando nas grimpas
Um sorriso sem fúria, entre réu e juiz
A clemência e a ternura por amor da clausura
A prisão sem tortura, inocência feliz
Ai meu Deus
Falso sonho que eu sonhava
Ai de mim
Eu sonhei que não sonhava
Mas sonhei
compositores: Tião Graúna/ Rodolpho/ Martinho da Vila
Pra me casar com você
Eu vou ter que me cuidar
Contratar um personal
Treiner pra me acelerar
Também vou ter de fazer
Uma dieta alimentar
Catuaba no almoço e ostras antes do jantar
Quando a gente for deitar
Um bom pó de guaraná
Se a quentura tiver morna
Come um ovo de codorna
E se a noite for infinda
Aí só Pau de Cabinda
Se ela quiser bis no fim
Pimenta no amendoim
E depois pra me acalmar
Suco de maracujá
Eu não me canso de dizer
O quanto gosto de você
E que o meu maior prazer
É lhe ver bem feliz
Como uma bela princesinha
Ou uma fogosa rainha
Com seu tear brilhante
Ornada com flores de lis
Meu sonho é um pomar
Com árvores frondosas
Que dêem frutas boas
Pra você degustar
E cultivar um jardim
Mantê-lo bem florido
Onde se colham flores
Só pra lhe lhe ofertar
Mas pra ganhar muitas flores
Tem de ser a flor mais pura
Do meu sonhado quintal
E pra chupar minha fruta
Tem de ter boa conduta
Ou então vai se dar mal
E pra ser minha rainha
Tem de ser todinha minha
Eu só teu e ninguém mais
Pois sou muito possessivo
E posso até ser agressivo
Quando me passam pra traz
Mas não me canso de dizer
O quanto gosto de você
João Donato/ Martinho da Vila//Martinho da Vila
Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos,
Do arvoredo e faz a lua,
Nascer mais cedo.
Lá, em Vila Isabel,
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba.
São Paulo da café,
Minas da leite,
E a Vila Isabel da samba.
A vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Em um feitiço descente
Que prende a gente
O Sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
“Sol, pelo amor de Deus,
não vem agora
que as morenas
vão logo embora”
Eu sei tudo o que faço
sei por onde passo
paixão não me aniquila
Mas, tenho que dizer,
modéstia a parte
meu senhores… Eu sou da Vila!
Noel Rosa/ Vadico
Quando essa onda passar
Vou te levar nas favelas
Para que vejas do alto
Como a Cidade é bela
Vamos à Boca do Mato
Meu saudoso Pretos Forros
Quanto essa onda passar
Vou te levar bem nos morros
Não sei onde vamos primeiro
Quando essa onda passar
Formiga, Borel ou Salgueiro
Quando essa onda passar
Sei que vou lá na Mangueira
Pegar o Mane do Cavaco
E levar pra uma roda de samba
No meu Morro dos Macacos
Quando essa onda …..
É bom zuelar nas umbandas lá do Vidigal
Candomblés, no Turano
Um fanque, um forró, um calango
No Andaraí, Tuiuti ou Rocinha
Ver os fogos de fim de ano
Da porta de uma tendinha
E depois vamos dançar um jongo
Num terreiro da Serrinha
compositor: Martinho da Vila
Eu lhe dei as porções de alfazema
Que havia guardado pra Deus
E a mirra, o ouro, o incenso
Eu também entreguei pra você
Por aí eu fui me despojando
Dos meus bens e de todos legados
Não valeram meus tantos cuidados
Se perdi o melhor que sonhei
Construí um presépio de areia
E dourei seus caminhos de luz
Povoei o seu chão com as estrelas
Que Orestes um dia pintou
Mas percebo agora de longe
Que você nelas jamais pisou
compositores: Martinho da Vila/ Hermínio Bello de Carvalho
Eu não vou porque eu não sou de ir
Meu negócio foi sempre ficar
Mas não sou de ficar só aqui
Fico aqui e acolá
Meu coração é sulamericano
Mas eu tenho os meus pés no além-mar
Vai ou não vai…
Se tiver que ir, vou pro Nordeste
Me banhar em João Pessoa
Dar um cheiro na paraibinha
Feminina sim sinhô
Muito meiga, muito boa
Toda cheia de amor
Vai ou não vai…
Minha alma só quer voar
Nas asas da gaivota
Minha amiga é uma estrela
Meu amigo é um qualquer
Uma bíblia é Fernão Capelo
Minha deusa é uma mulher
Vai ou não vai…
Eu sou um cidadão pernambucano
Da cidade de Jaboatão
Bibarrense do Rio de Janeiro
Não preciso de auto-afirmação
Já passei da idade de Cristo
J”a estou na idade da razão
Meu negócio é um samba merengado
“Butiquim” e batida de limão
compositor: Martinho da Vila
É devagar, é devagar
É devagar, é devagar
Devagarinho
Devagarinho
É que a gente chega lá
Se você não acredita
Você pode tropeçar
E tropeçando
O seu dedo se arrebenta
Com certeza não se agüenta
E vai xingar
É devagar, é devagar
É devagar, é devagar
Devagarinho
Eu conheci um car
Que queria o mundo abarcar
Mas de repente
Deu com a cara no asfalto
Se virou, olhou pro alto
Com vontade de chorar
É devagar, é devagar
É devagar, é devagar
Devagarinho
Sempre me deram a fama
De ser muito devagar
E desse jeito
Vou driblando os espinhos
Vou seguindo o meu caminho
Sei aonde vou chegar
compositor: Eraldo Devagar
Oh! Oh! Oh! Oh!
Ah! Ah! Ah! Ah!
Ai, ai, ai! Ai, ai, ai!
Ui, ui, ui! Ui, ui, ui!
Marcantes dobrinhas atrás dos joelhos
Lindas batatinhas moldando as canelas
Meu Deus! Que magia têm os calcanhares
No alto dos saltos das sandálias dela
Ela veio andando com tanta altivez
Ao passar me fitou com feitiço no olhar
Eu senti um tremor de desejo e de medo
Me dando motivo pra fantasiar
Na bolsa que ela carrega
Deve ter algemas, chicote ou chinela
E a tatuagem completa o fetiche
Que a correntinha de ouro revela
Oh! Oh! Oh! Oh!
Ah! Ah! Ah! Ah!
Ai, ai, ai! Ai, ai, ai!
Ui, ui, ui! Ui, ui, ui!
Ao provar o seu batom
Fui deixando-me envolver
Mandei a razão pros ares
Ela me quis um Rondon
Mas diz que eu fui um Zumbi
Sensual rei dos Palmares
Recriando a criação
Despertei seu corpo tenso
Pr’as delicias do amor
Ela ficou tão feliz
Que serena adormeceu
Despertando me abraçou
E falou.
Bem, foi tão bom pra mim
E eu fiquei assim
Emocionado
Foi
Foi tão aderente
Sua boca quente
Num corpo suado
Foi um momento lindo
Quando dei por conta
Tinha me entregado
Eu quero ser
Quero ser paizinho
Quero ser filhinho
Quero muito mais
Eu quero ser
Quero ser todinho
Pra você, carinho
Vibração e paz
Cláudio Jorge/ Martinho da Vila// Zé Catimba/ Martinho da Vila
Eu tenho um amigo que é do Rio de Janeiro
É muito forte e sempre foi bom companheiro
Surpreendentemente me disse em segredo:
Tenho medo, tenho medo, tenho medo
Tenho medo, tenho medo, tenho medo
To com medo, to com medo to com medo
To com…
To com medo…
To com medo…
To com medo de ir a praia nadar
To com medo de ver meu time jogar
Tenho medo de qualquer um reboliço
Tenho medo de quebranto e de feitiço
To com medo de comer e passar mal
To com medo até de ler o jornal
Medo, to com medo …
Medo, to com medo …
Medo, to com medo …
Medo, to com medo.. .
Tenho muito medo de ser assaltado
Tenho medo também de ser sequestrado
Tenho medo de polícia e de ladrão
Tenho medo de estar na multidão
Tenho medo quando vou pra minha lida
Tenho medo de uma bala perdida
Tenho medo de por o carro na estrada
Tenho medo de sair com a minha amada
To com medo …
To com medo…
To com medo
To com medo…
To com medo de ir a praia nadar
To com medo de ver meu time jogar
Medo to com medo com …..
Tenho medo de qualquer um reboliço
Tenho medo de quebranto e de feitiço
Medo to com medo…
Tenho medo de comer e passar mal
Tenho medo ver e ler o jornal
To com medo…
To com medo …
compositor: Martinho da Vila
Esta noite eu sonhei com uma roda de samba no céu
Com Pixinguinha, Donga, Almirante, Sinhô, Ismael…
Noel Rosa versava
Wilson Batista respondia
Batucando num prato
João da Baiana sorria
Geraldo Pereira sambava
Marília Batista cantava
Araci de Almeida gingava
E Tia Ciata gostava
Era um samba de roda meio maxixado
Muito ritmado
Que Ataulfo Alves dizia ser samba rasgado
Se achegaram Vinícius, Heitor dos Prazeres, Padeirinho
E Cartola tocando a viola do Nelson Cavaquinho
compositor: Martinho da Vila
Eu vou-me embora
Mas vou muito invocado
Sinto , tenhor que deixar
Um pagode incrementado
Fala pra eles viola
Diga também meu pandeiro
Mostra pra eles cavaco
Que também somos partideiros
O pagode começou
Sob a luz do candeeiro
O partido começou
Sob a luz do candeeiro
Já andou por todo o mundo
Mas é do Rio de Janeiro
Nosso pagode é gostoso e o nosso boteco é bem cativante
Cachaça da boa, chopinho gelado
Aipim, carne seca, gente interessante
Mas o que há de melhor quando eu vejo por lá eu não posso negar
É um povo bonito e muito sensual
Cantando e sambando no maior astral
Eu vou-me embora
compositores: Martinho da Vila/ Nelson Cebola
Quem lhe disse que chorei?
Quando você partiu
Nem uma lágrima correu
Esse alguém mentiu
Pra que chorar, eu não
Motivo eu não vejo
Até gostei, quando você partiu
Pois era o meu desejo
Amar você, eu não
Pedir perdão, porque?
Quem errou
Foi você
Escute meu conselho
Procure um outro alguém
Não faça caso
Seja feliz, meu bem
Antônio Grande
Part. Especial: Velha Guarda de Vila Isabel
Vejam esta maravilha de cenário
É um episódio relicário
Em que o artista
Num sonho genial
Escolheu para este carnaval
E o asfalto como passarela
Será aquela
O Brasil em forma de aquarela
Caminhando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais
E no Pará, na ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó
Caminhando ainda um pouco mais
Deparei com lindos coqueirais
Estava no Ceará
Terra de Irapuã, de Iracema, e Tupã
Fiquei radiante de alegria
Quando cheguei à Bahia
Bahia de Castro Alves e do acarajé
Das noites de magia
Do Candomblé
E pude atravessar
As matas do Imbú
Assisti em Pernambuco
A festa do frevo e do maracatu
Brasília tem o seu destaque
Na arte, na beleza e arquitetura
Feitiços de garoa pela serra
São Paulo engrandece a nossa terra
Do Leste por todo Centro-Oeste
Tudo é belo, e tem lindo matiz
E o Rio
O Rio de sambas e batucadas
De malandros e mulatas
De requebros febris
Brasil, essas nossas verdes matas
Cachoeiras e cascatas
De colorido sutil
E neste lindo céu azul de anil
Emolduram aquarela
Meu Brasil
Lá, lá, lá, lá, iá