No doce embalo de um sonho
Risonho eu fui me encontrar
No ponto cem réis, anos trinta
Feliz foi a vida que eu vivi por lá
Poetas, boêmios, cantores e compositores
O prazer em flor
Quando o mais alto expoente
Um samba envolvente nos presenteou
Noel Rosa, bela rosa
Que o jardim do coração
Desse povo eternizou (2x)
E nas batalhas do Boulevar
João de barro, almirante e outros mais
Cordões com suas ricas fantasias
O corso e suas sátiras infernais
Nos blocos de sujo
Malandros e intelectuais
Cantavam e dançavam alegremente
Marchinhas e sambas quentes
Que animavam os carnavais
Martinho – Luiz Carlos de Vila
Lá no planalto central
Em pleno coração do Brasil
Ergueu-se Brasília a moderna capital
Sessenta, Vinte e Um de Abril
Brilha pela linha arquitetônica
A tão linda
E pomposa cidade
Antes vista como obra faraônica
É patrimônio cultural da humanidade.
E o Rio?
O Rio muito se lamentou
Com a perda do Distrito Federal
O pandeiro calou
Pra sambar ninguém foi
Carioca chorou
Ai ai ai, oi oi oi
Porém nova bandeira
Num grande mastro foi hasteada
E essa gente tão festeira
Viu outra ideia antiga realizada
E o Rio, com sua beleza rara
Virou capital
Do Estado da Guanabara
Aí o pandeiro soou
E o Rio cantou larará larará ô ô ô
Com repiques, tamborins e agogô
A cuíca roncou rororô, rororô, rororo
Rorororororo Rio!
Martinho da Vila
O Rio é sempre um esplendor
no por do sol do Arpoador
Tem Macumba pra turista
Vender? Só vendo a vista
É fogo que arde sem se ver
Ou até vendo é um tremendo fuzuê
O Rio às vezes é um grande abacaxi
de São Conrado a São João de Meriti
Uma janela sempre bela e admirada
do Cristo Redentor à Enseada (2x)
O Rio é Bento Ribeiro
Salgueiro e Oswaldo Cruz
Maracanã lotado
Mangueira e sua luz
Foi sequestrado
por um pirata francês
E depois ficou dominado
pelo bonde do Império português
Mas pode crer, minha amada
Quando eu nascer outra vez
de madrugada
Devagar devagarzinho
Vou subir ao Terreirinho
Lá em Vila Isabel
Então eu vou achar que to no céu
Martinho da Vila e Geraldo Carneiro
Minha preta, vem ver amor
O Cruzeiro do sul se cariocou
E também o arco íris
Que o céu pintou
E o plenilúnio
Com seu esplendor
Minha branca, clareou
A água do Rio que me banhou
Você é cerca de arrimo
Que guarnece eu
E o melhor mimo
Que Olorum me deu
Cerca de arrimo que guarnece eu
E o melhor mimo que Olorum me deu
É brisa leve para refrescar
A vaga lenta que vem lá do mar
É alva nuvem lá no firmamento
Minha energia e o meu alento
Estrela-guia que me norteou
Um alimento que me saciou
Oxigênio, respiração
E os impulsos do meu coração
Meu manacá com cheiro de alecrim
Um passarinho que pousou em mim
Minha preta
Martinho da Vila
O samba mandou dizer
Quem quiser pode chegar
Mas pode também se mexer
Sentado no seu lugar
É muito bom se soltar
Mesmo sem malemolência
O negócio é sambar de qualquer maneira
Até encontrar cadência (2x)
O Pixinguinha só se balançava devagarinho
João Baiana rei do miudinho
Muito admirava o rebolar
Do Donga com as mãos nas cadeiras
Tentando se abaixar
E se levantar com o corpo ao sabor
Do vai e vem do amor
Moacyr Luz – Martinho da Vila
Escute benzinho você não pode nos deixar
Este triângulo de amor não pode acabar
Não vamos nos separar
Somos versos da poesia
Você e eu, orgia
Separar
Ai, mas pra que se separar?
Você e eu, orgia
Acredito nos versos
Por isso lhe peço mais compreensão
Me conheceste no samba
Terreiro de bamba pandeiro na mão
Quando estou vadiando neguinho reclamo sua companhia
Você e eu, orgia
Se eu morrer na orgia
Tô certa neguinho que vou lá pro céu
Vou orgiar lá em cima com Silas
Com Ciro Monteiro, com Zinco e Noel
Quero morrer nos seus braços
Porque você é minha estrela da guia
Você e eu, orgia
Orgia é aquela folia
Aquela esticada pela madrugada
É um papo bom, discussão, violão
No fim de semana aquela feijoada
Cachaça não é água benta
Igual a que o padre batiza na pia
Você e eu, orgia
Quem leva a mulher pro samba
É o cara que paga pra ver e confia
Você e eu, orgia (2x)
Somos a realidade
E somos a fantasia
Você e eu, orgia (coro)
Nós somos a santa trindade
E somos a trilogia
Você e eu, orgia (coro)
Somos um papo furado
E somos filosofia
Você e eu, orgia (coro)
Separar mas pra que se separar
Você e eu, orgia
Que será mas o que de nós será?
Você e eu, orgia
Candeia -Martinho da Vila
Ai, nêga, nêga, nêga
Tão cansado, irritado
Ao sair do meu trabalho
Encontrei com o caveira
O caveira nêga, o caveira
Empunhando a promissória
Que venceu na quarta-feira
O caveira nêga, o caveira nêga
O caveira nêga, ô ô ô
Ai nêga, nêga, chega
Não me venha com chamego
Que ao sair do meu emprego
Dei de cara com o caveira
Qual caveira nêgo, qual caveira?
Todo cara que eu devo
Na minha frente é um caveira
Um caveira nêga, um caveira nêgo
Um caveira nêga, ô ô ô
Um caveira nêgo, um caveira nêgo
Um caveira nêgo, ô ô ô
Nesse meu raciocínio
Quando vence o condomínio
O porteiro é uma caveira
Um caveira nêgo, um caveira
Aluguel tão atrasado
Fico muito assustado
Senhorio é uma caveira
Um caveira nêgo, um caveira
É nega, tá difícil
É.
Juro por São Benedito
Creio em Nossa Senhora
Que ainda vai chegar o dia
Inda vai chegar a hora
Que eu vou ficar tranquilo
Você vai ficar contente
Espantando essas caveiras
Que estão na nossa frente
O caveira nêgo, o caveira nêgo
O caveira nêgo, ô ô ô
O caveira nêga, o caveira nêga
O caveira nêga, ô ô ô
Martinho da Vila
Irmão,
A gente não tem nem mais o que comer
Trabalho não há também pra laborar
Então o que é que a gente vai fazer?
Mulher,
Eu acho que a gente vai ter que roubar
Sair pelas ruas, botar pra quebrar
De fome é que a gente não pode morrer
Não sei,
Pensando bem acho que não vai dar
Roubar contraria as leis do Senhor
E a justiça dos homens vai nos condenar
Meu Deus,
Meu Deus, meu Deus, meu Deus
Me diga porque que a gente foi nascer
Se a vida do pobre é um eterno sofrer
Se falta coragem até pra protestar
Querendo morrer pra poder descansar
Descansar
Irmão,
A gente não tem nem mais o que comer
Trabalho não há também pra laborar
Então o que é que a gente vai fazer?
Não sei… Não sei.
João de Aquino – Martinho da Vila
Diz menina, o que aconteceu
O meu pai se mandou de casa
E a mãe desapareceu
Vendo bala, pipoca e amendoim
Pra sobreviver
Pra viver
As marquises são meu teto
E as ruas a minha escola
Os adultos maltratam a gente
E tudo tão ruim
Tão ruim
Menina, quem é você
Sou criança
Mas tenho sonhos lindos
E vou crescer
Quando grande eu vou querer cuidar
Dos iguais a mim
Menina, o que já sofreu, diz
Passei fome e também fui agredida
Mas eu não tenho medo
De falecer
Por que?
Pois sonhei
Que no céu tem uma cidade
Só pra crianças
Como eu
Lá a gente almoça, janta
E dorme de cobertor
Professores nos dão amor
Não se teme o anoitecer
Tem duendes pra proteger
Anjos bons chegam de manhã
Diz menina, como acordou
Acordei querendo morrer
Mas com fé vai sobreviver
Rildo Hora – Martinho da Vila
Como é bom adormecer
Com a consciência tranquila
As chuteiras penduradas
Depois do dever cumprido
Despertar num mundo livre
E despoluído
Onde tudo é só amor
Coisas imateriais
Onde o medo não existe
Nem das reencarnações
Pois as purgações da terra
São pra se purificar
E se tornar ser abstrato
Imaterializável
Até ser flor-luz que influi
Nas gerações
Sempre lutar pelas coisas que se acredita
Mas tem que ser luta bonita
De ideais comuns
Quem não for justo e honesto nas coisas que faz
Jamais será flor que flui
Pra viver na eterna paz
Jamais será luz que influi
Pra vida na eterna paz
Como é bom adormecer.
Candeia – Martinho da Vila
Quando eu morrer
Vou bater lá na porta do céu
E vou falar pra São Pedro
Que ninguém quer essa vida cruel
Eu não quero essa vida assim não Zambi
Ninguém quer essa vida assim não Zambi.
Eu não quero criança chorando
E velhinha esmolando uma xepa na feira
Eu não quero esse medo estampado
Na cara de negro sem eira nem beira
Eu não quero essa vida não Zambi
Ninguém quer essa vida assim não Zambi.
Abre as cadeias
Pros inocentes
Dá liberdade aos homens de opinião
Quando um preto tá morto de fome
Um outro não tem o que comer
Quando um negro tá num pau-de-arara
Tem gente penando em outro sofrer
Eu não quero essa vida assim não Zambi
Ninguém quer essa vida assim não Zambi
Eu não quero essa vida não Zambi
Ninguém quer essa vida assim não Zambi
Deus é pai, Deus é filho, Espírito Santo é Zambi
Deus á pai, Deus é filho, Espirito Santo é Zambi
Martinho da Vila
Sou carioca como a bossa nova
Partido alto é o meu dikamba
Sou a Umbanda
Venho de Aruanda
E o meu batuque
Aqui virou samba
Cá a Kianda é Iemanjá
É Janaina e também Aioká
São Benedito
É um Preto Velho
Que transmite as ordens
Do Pai Oxalá
Martinho da Vila