Sei que todos sabem quem eu sou
Mas agora vou me apresentar melhor
Posso ser amigo de um qualquer
E de quem quiser me ouvir para
sair da pior
Meu gosto é penetrar nos ouvidos
Balançar os corpos
Atingir os sentidos
Dizem que eu nasci na Bahia
E sou carioca registrado
Bem criado nas favelas, mas posso
ter sido cria
De qualquer um outro estado
FALADO – Ou mesmo em qualquer
cidade que tinha uma senzala e sons de
zuela. Dos batuques sou sequela
Do Brasil sou patrimônio imaterial
Representavivo como o Hino Nacional
FALADO – Que só toca em cerimônias
E não gosta de aplausos
Eu sou aplaudido nos eventos
E sem nenhum acanhamento nos
festejos sociais
Sou de roda, sou da bossa, sou do breque
E além do mais
Eu sou o rei dos carnavais
FALADO – O malandro Moreira da
Silva, inventor do samba de breque,
não era de folia, não bebia, e nem
curtia uma diamba.
E o Zé Ketti, portelense bom
dikamba, falou:
Eu sou o samba…
Composição: Martinho da Vila
Surgi nadando na bolsa d’água
E dei um choro quando nasci
Mamei no peito, fui bem criança
Já trabalhando adolesci
Tive direito à felicidade
E como todos, também sofri
Fiquei adulto, já estou maduro
Fui muito amado e muito amei
Se Deus quiser, eu vou
Ficar bem velho
A morte é certa
Depois, não sei
Composição: Martinho da Vila
Lá fora tanto frio
Cá na tasca quase nem
Estou só e saúdam-me:
Tudo bem? O que desejas?
Eu disfarço pedindo um bagaço
Joaquimzinhos, ameijoas
Pasteizinhos de bacalhau
Pastéis de bacalhau
Depois de um tinto vinho
Da serra, um queijinho
Tudo bom, nada mal
Tudo bom, nada mal
Que desejo mais? Eu pergunto-me
Que almejo mais? Eu respondo-me
Só tu
Meu sabor
Meu calor
Composição: Martinho da Vila
A tal brisa da manhã
Sempre me fez muito bem
Acordei, li o jornal, desjejuei e caminhei
Me esqueci de rezar
Então orei caminhando
Não pedi, só agradeci
Quem já está bem não precisa mais
É só se cuidar pra não decair
Mas o que me vem mal dá pra viver
Ainda tenho muito que batalhar
Tanto a pagar, que só de pensar
Muito me cansei, parei de andar
Não queria mais trabalhar, não
Mas eu tive que ir trampar
Composição: Martinho da Vila e Luiz Carlos da Vila
Oh, que saudade, que saudade do amor
Que eu deixei, que eu deixei no interior
Quando eu vim pra cidade, jamais consegui voltar
Talvez ela tenha outro alguém
Certamente já me esqueceu
Para olvidá-la também eu
Abri meu coração para amar
Mas quando a saudade me vem
Eu não consigo namorar
E pro novo amor como é que eu vou me explicar?
Composição: Martinho da Vila
Minha nova namorada é bonita
Muito linda mesmo
A primeira vez que a vi era ainda muito jovem
Quase virgem
Uma fruta verdinha em todos os sentidos
Seu verde água se confundia com o azul de um imenso mar
Hoje está mais madura, imponente como uma égua de competição
Vista de cima é deslumbrante
Um avião planado
Paquerei sem sonhar pensando: “É muita areia para
os meus pés caminhados”
Mas a brisa da sorte
Aquela que sopra sempre para o lado dos poetas
Me ventilou e tive a aventura de conhecê-la
Devagarinho fui me achegando
Flertamos
Descobri seus outros encantos, seus recantos
Deixei-me levar nas suas águas
E estamos namorando bem enamorados
É certo que vou me apaixonar porque ela é bela
Dominante, excitante
Não é tão segura como Duas Barras, mas é calma
Não tem tantas vilas como a Vila, mas é mais tranquila
Tem point, não tem muvuca
É a Barra da Tijuca
Composição: Martinho da Vila
É muito bom ser mulher
Ser amada, cortejada
Possuir, ser possuída
O amante pode ser um qualquer
Se for afável e de interior, beleza
Ser mulher não é ficar na vida qual água
Inerte, presa
É tentar a glória escalando as aspirações de um ideal superior
A liberdade, o labor
É lutar contra as ilusões dos preceitos
E os grilhões dos preconceitos gerais
Calcular o infinito transposto
Dominar os desejos
Seguir os ideais
Dar à luz, filiar ou adotar
E assim ser verdadeiramente mãe
Talhar a cria para as lutas e os principais gozos da vida
A música, a poesia e o amor
Composição: Martinho da Vila
Eu a amo apaixonadamente
Mas pelo presente já nem gosto tanto dela
Porque ela está corrompida
Vendida, perdida
E não há ninguém que lhe diga onde está a saída
Mesmo assim não a desprezo
E até por ela rezo
Posso até fazer promessa
E que alguém por ela peça
Não a trato com desdém
Sou responsável também
Olho pro céu
Me benzo e não digo amém
Composição: Martinho da Vila
Vamos levantar a bandeira da fé
Não esmoreçam e fiquem de pé
Pra mostrar que há força no amor
Vamos
Nos unir, que eu sei que dá jeito
E provar que nós temos direito
Pelo menos à compreensão
Se não, um dia
Por qualquer pretexto
Nos botam cabresto
E nos dão ração
Pra reconquistar os direitos
Temos que organizar um mutirão
Derrubar os preconceitos
E a lei do circo e pão
E ao mesmo tempo, cantar, sambar
Amar, curtir
Só assim tem validade, minha gente
Este nosso existir
Composição: Martinho da Vila e Zé Catimba
A voz de Martin / Ecoou nas ruas
Está provado / Que o sonho continua
Hoje em dia o rap / Denuncia e atua
Versando um samba / Sim, o
sonho perpetua
Mas, na verdade, pra vencer tem que lutar
Eu reverbero o King pra fazer justiça
Vou nesse canto pra chegar e te dizer
Que esse papo de racista é nada a ver
Nada a ver… Nada a ver… Nada a ver
RAPPIN’ HOOD – Tudo a ver é cantar para o
Rei King, com swing
Respeitar os povos foi o que ele disse
Foi o que ele disse:
“O que mais me preocupa não é o grito
dos maus, é o silêncio dos bons”
Então chega junto
Chega junto, gente boa
Que é pra mudar o mundo pras nossas
crianças poderem ter tudo, esquecerem
o racismo, irmão
MARTINHO – É isso aí, mano negão
Fala pro povão de todos os tons
“O que também me preocupa não é o
grito dos maus,
é o silêncio dos bons”
Chega junto
Chega junto, gente boa
E não fique aí parado à toa como um
dois de paus
Sonhe mais, mais e mais em altos graus
CANTADO – Sonhe mais, mais e mais em
altos graus
Sonhe mais / Que a voz do King ecoa
A voz de Martin / Ecoou nas ruas
Está provado / Que o sonho continua
Hoje em dia o rap / Denuncia e atua
Versando um samba / Sim, o
sonho perpetua
Mas, na verdade, pra vencer tem
que lutar
Eu reverbero o King pra fazer justiça
Vou nesse canto pra chegar e te dizer
Que esse papo de racista é nada a ver
Nada a ver… Nada a ver… Nada a ver
RAPPIN’ HOOD – Não matarás a força de
um pensamento
Verso um rap com samba porque
tenho argumento
Você pensou que nos matando
matava o discurso
Eu quero a paz e tenho um sonho e sigo
o percurso
A voz de Martin é Marielle hoje no
Brasil como se fosse Luther King
morta por fuzil
Infelizmente o ser humano tem
esses defeitos
E quer te eliminar do jogo pra
ganhar dinheiro
MARTINHO – Falou guerreiro, sangue bom
Com o coração, como o King dizia
Eu digo que por aqui está
faltando o Abdias
Lélia Gonzales, Tereza Santos
Antonio Pompeu e outros tantos
Tudo gente boa
Que não ficava parada à toa
Sonhe mais…
Composição: Rappin’ Hood, Martinho da Vila e Juju Ferreirah
Zumbi, Zumbi
Zumbi dos Palmares, Zumbi
Liderou o quilombo-nação já multirracial
Proibia discriminação de maneira qualquer
Entre jovens, idosos, crianças e adultos
Guerreiros e excepcionais
Índios, caboclos, negros e brancos
Além dentre homem e mulher
Zumbi, Zumbi
Zumbi dos Palmares, Zumbi
Sonhava fazer de um estado um
grande coração
Pernambuco até as Alagoas ser o
mesmo chão
Não morreu porque mais do que gente
ele era ideais
E os grandes ideais não morrem jamais
Rei Zumbi, Rei Zumbi e Zumbi
Zumbi dos Palmares, Zumbi
Rei Zumbi, Rei Zumbi e Zumbi
Então surgiram aos milhares por
estes Brasis
Quilombos, mocambos, Palmares e
novos Zumbis
Que até hoje norteiam
Cabeças pensantes, pregando
a miscigenação
De um povo que canta, que dança
e proclama
Zumbi, eis a tua nação
Rei Zumbi, Rei Zumbi e Zumbi
Zumbi dos Palmares, Zumbi
Rei Zumbi, ó, Zumbi, és um rei
Zumbi, ó, Zumbi
Zumbi dos Palmares, Zumbi
Composição: Martinho da Vila e Leonardo Bruno
O Pai Arraia baixou na avenida
No seu cavalo azul e branco
E era o ano do centenário de um
brasileiro de real valor
Vem à memória os tempos difíceis
Em que a seca era causticante
Mas os caboclinhos não perderam a fé
E os maracatus não silenciaram
Surgiu um movimento de popular cultura
Pra dar consistência à educação
Com mestre Paulo Freire,
Brenant, Suassuna
Professor Germano e outros sonhadores
Grande legado é a esperança
De que o país vai se superar
Como pregava o futuro santo
Que era confidente do Miguel Arraes
Dançavam frevo, cantavam ciranda
Lá no Recife o baile é pra pular
E cá no Rio alegremente
Vou frevando o samba
E ensinando o carnaval