Êta mundo grande
Cheio de beleza
Com esta imensa natureza
Que o bom Deus criou
Este mundão foi feito
Pra se vadiar
Mas o que vale nesta vida
É o que se faz, o que se sonha
E o que se ama
Quem vê o mundo
Com os olhos de poesia
Descobre filosofia
Até num dito popular
Dos desenganados
Colhe sempre ensinamentos
Tira sons de um lamento
Pra poder cantarolar
Se sobrevive
É se entregando à alegria
Pois é certo que a tristeza
Não se deve cultivar
compositor: Martinho da Vila
Cirandar, cirandar, cirandar
Na praia olhando para o mar
Pescador pega a rede
E vai pescar
Jangadeiro se apronta
Pra velejar
Cirandar, cirandar
Cirandar, cirandar
Na beira da praia
Com os pés na areia
Com as mãos enlaçadas
Balançando a saia
A cirandar, oi a cirandar
A cirandar, oi a cirandar
Ó, minha mãe Janaína
Proteja os pescadores
Dê boa voz pros cantores
Pra cantar as cirandas
E os maracatus
Também frevos pulantes
Que animam os carnavais
E as canções dos amantes
Um som de ternura e paz
compositores: João de Aquino / Martinho da Vila
É uma festa pros olhos
Teu corpo moreno
Bem pode ser um veneno
Mas quero provar
Tu podes ser meu tempero
Meu cheiro,
Meu coentro
Diferença eu entendo
Mas tô te querendo
E tenho que falar
Teu corpo, tão lindo
Já está pronto pro amor transar
Que você é uma flor
Se abrindo em botão
Eu sei
Mas que em mim o amor
Você pode encontrar
Também
Prometo lhe compreender
E tentar lhe fazer
Feliz
E me entregar totalmente
De um jeito que eu nunca fiz
A vida menina
Só é bonita pra quem sabe amar
E eu tenho guardada
Uma ternura imensa pra lhe dar
compositores: Zé Catimba / Martinho da Vila
Lua feita de fusão
As estrelas de morim
Presas no aquário
De um céu mercenário
Que tudo só quer pra si
Flautas, violões, luar
Se desvaira o coração
Uma voz pungente
Calma, quase rouca
Apregoa uma canção
A canção me soa antiga
Chora qual um bandolim
E eu vejo um biscuí de louça
Na trança da moça
Como um trancelim
A moça me trança e me laça
E da boca exala
Um cheiro de jasmim
Abre-me o seu jasmimeiro
Faz-me de seu curumim
Se entrega como esposa nova
De véu e grinalda
Em bolhas de carmim
E a lua bem cumplicitiva
Majestosa aumenta
A fantasia em mim
compositores: Martinho da Vila / Hermínio Bello de Carvalho
Voa,
Voa passarinha voa
A gaiola está aberta
Tu não estais presa mais
Voa,
Bate asas e vai embora
Mas há perigos lá fora
Visgos e pedras mortais
Voa, pra ser livre valem os riscos
Voa,
Foge lá pros altos picos
Canta
Pra chamar o companheiro
Que está voando fagueiro
Entre frutas tropicais
compositores: João Donato / Martinho da Vila
Esta vontade de ser
Possuída e molhada
Lambendo o suor
Este meu brilho nos olhos
E estes antolhos
Pra tudo ao redor
Isto é o amor, meu amor
Isto é o amor, meu amor
Isto é o amor,
Meu amor
Nosso amor
É um amor
Esse grito abafado
Este ronco no sono
Esse beijo chupado
Ao amanhecer
Esta minha vontade
De ser o seu dono
Esse falso abandono
Este modo de ser
A cachaça, ardendo no peito
E os corpos, rolando no leito
Este papo, o cigarro
O buraco, o xadrez
Na vitrola girando
Um som tão burguês, pois é
Isto é o amor, meu amor
Nosso amor, é o amor
compositor: Martinho da Vila
Até as estações do ano
Já perderam o seu valor
Primavera no outono
E faz frio no calor
Tem muito mais
Basta querer raciocinar
Imaginem minha gente
Explodindo a bomba H
Se o mar recuperasse
Seu verdadeiro lugar
Eu na minha ignorância
Não consigo ignorar
De que vale a inteligência
Quando a tendência é má
Vejo a dona ciência
De braços dados com a evolução
Caminhando a passos largos
Para a exterminação
Vejo o polo degelar
Sinto a poluição
Vejo as guerras se alastrar
É irmão matando irmão
Se o Cristo aqui voltar
Com a intenção de nos salvar
Será preso, algemado
E nem vai poder falar
compositor: Aluisio Machado
Irmão,
A gente não tem nem mais o que comer
Trabalho não há também pra laborar
Então o que é que a gente vai fazer
Mulher,
Eu acho que a gente vai ter que roubar
Sair pelas ruas, botar pra quebrar
De fome é que a gente não pode morrer
Não sei,
Pensando bem acho que não vai dar
Roubar contraria as leis do Senhor
E a justiça dos homens vai nos condenar
Meu Deus,
Meu Deus, meu Deus, meu Deus
Me diga porque a gente foi nascer
Se a vida do pobre é um eterno sofrer
Se falta coragem até pra se matar
Querendo morrer pra poder descansar
Descansar…
compositores: João de Aquino / Martinho da Vila
Um homem chorando
Amores desfeitos
As flores murchando
Só mágoas no peito
Um povo sem brio
A mão que não cria
Um corpo no cio
E a cama vazia
Um jovem sabendo
De um mal já sem cura
Mil bocas dizendo
Blasfêmias, perjuras
Memórias perdidas
Nigéria sofrida
Um corte nos versos
Reversos da vida
compositor: Martinho da Vila
Saiu de casa
De terno tropical
Camisa creme
Lenço e gravata igual
Jantou e saiu
Satisfeito
Antes da meia-noite
Morreu com um tiro no peito
Ela lhe deu um cravo
O outro se ofendeu
Ele olhou o revólver
Dava tempo e não correu
Dobrou os joelhos
Sobrou no chão
Dois olhos redondos
E o cravo branco na mão
Ai, o pobre
Caído no chão
De bruços no sangue
E com o cravo branco na mão
compositor: Paulo Vanzolini
Hoje não tem ensaio não
Na escola de samba
O morro está triste
E o pandeiro calado
Maria da Penha
A porta bandeira
Ateou fogo às vestes
Por causa do namorado
O seu desespero
Foi por causa de um véu
Dizem que estas Marias
Não têm entrada no céu
Parecia uma tocha humana
Rolando pela ribanceira
A pobre infeliz
Teve vergonha de ser mãe solteira
Hoje não tem ensaio não…
compositores: Wilson Batista / Jorge de Castro
Ô filhinha
Se entrega ao estudo e se guia
Minha filha
Estuda, trabalha, se casa e procria
Oi filhinha, oi filhinha
Oi filhinha, oi filhinha
Já não é mais um problema
Uma experiência pré-nupcial
A autosubsistência antes do casamento
É que é fundamental
Seja sempre feminina
E jamais submissa, isto é,
Sem nunca se esquecer menina
Que homem é homem
E mulher é mulher
Se algum dia o divórcio chegar
Não vais ter problemas
Pra se adaptar
Nem vais viver de pensão de marido
E os teus filhos vão te admirar
A liberdade é um sonho
De quem permitiu se aprisionar