A Vila desce colorida
Para mostrar no carnaval
Quatro séculos de modas e costumes
O moderno e o tradicional
Negros, brancos, índios
Eis a miscigenação
Ditando moda
Fixando os costumes
Os rituais e a tradição
E surgem tipos brasileiros
Saveiros e bateador
O carioca e o gaúcho
Jangadeiro e cantador
Lá vem o negro
Vejam as mucanas
Também vem com brancos
Elegantes damas
Desfilam modas do Rio
Costumes do Norte
E a dança do Sul
Capoeiras, desafios
Fravos e maracatu
Laiaraia ô
Iaiaraia
Festa da menina-moça
Na tribo dos Carajás
Candomblés lá da Bahia
Onde baixam os orixás
(YAYÁ DOS CAIS DOURADO – 1969)
No cais dourado da velha Bahia
Onde estava o capoeira
A Iaiá também se via
Juntos na feira ou na romaria
No banho de cachoeira
E também na pescaria
Dançavam juntos em todo fandango e festinha
E no reisado, contra-mestre e pastorinha
Cantavam laralalaialaiá
Nas festas do Alto do Gantois
Mas loucamente a Iaiá dos cais dourado
Trocou seu amor ardente
Por um moço requintado
E foi-se embora
Passear em barco a vela
Desfilando em carruagem
Já não era mais aquela
E o capoeira que era valente chorou
Até que um dia a mulata
Lá no cais apareceu
Ao ver o seu capoeira
Pra ele logo correu
Pediu guarida
Mas o capoeira não deu
Desesperada caiu no mundo a vagar
E o capoeira ficou com seu povo a cantar
Lalaialalará…
(GLÓRIAS GAÚCHAS – 1970)
Desfila a Vila novamente incrementada
E desta vez tem Rio Grande na jogada
Com suas glórias e tradições
Suas histórias e seus brasões
Tem gaúcho lá nos Pampas que não é de brincadeira
Estadista de renome já nos deu este torrão
Foi rainha da beleza a farroupilha hospitaleira
É a terra da videira, do churrasco e chimarrão
Vamos cantar
Gentes do meridião
Caminhando pela estrada
Sem espora e sem gibão
Toma conta do rebanho
Negrinho do pastoreio
Sonha e canta o teu sonho
Na viola o violeiro
E o gaúcho forasteiro
Contemplando o céu azul
Até o norte brasileiro
Vai cantarolando uma canção do sul
Vou-me embora, vou-me embora, prenda minha
Tenho muito que fazer eu vou partir para bem longe, prenda minha
Pro campo do bem-querer
compositor: Martinho da Vila
A grande paixão
Que foi inspiração
Do poeta é o enredo
Que emociona a velha-guarda
Lá na comissão de frente
Como a diretoria
Glória a quem trabalha o ano inteiro
Em mutirão
São escultores, são pintores, bordadeiras
São carpinteiros, vidraceiros, costureiras
Figurinista, desenhista e artesão
Gente empenhada em construir a ilusão
E que tem sonhos
Como a velha baiana
Que foi passista
Brincou em ala
Dizem que foi o grande amor de um mestre-sala
O sambista é um artista
E o nosso Tom é o diretor de harmonia
Os foliões são embalados
Pelo pessoal da bateria
Sonho de rei, de pirata e jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
Mas a quaresma lá no morro é colorida
Com fantasias já usadas na avenida
Que são cortinas, que são bandeiras
Razão pra vida tão real da quarta-feira
É por isso que eu canto
compositor: Martinho da Vila
Sonhei
Que estava sonhando um sonho sonhado
O sonho de um sonho
Magnetizado
As mentes abertas
Sem bicos calados
Juventude alerta
Os seres alados
Sonho meu
Eu sonhava que sonhava
Sonhei
Que eu era o rei que reinava como um ser comum
Era um por milhares, milhares por um
Como livres raios riscando os espaços
Transando o universo
Limpando os mormaços
Ai de mim
Ai de mim que mal sonhava
Na limpidez do espelho só vi coisas limpas
Como uma lua redonda brilhando nas grimpas
Um sorriso sem fúria, entre réu e juiz
A clemência e a ternura por amor da clausura
A prisão sem tortura, inocência feliz
Ai meu Deus
Falso sonho que eu sonhava
Ai de mim
Eu sonhei que não sonhava
Mas sonhei
compositores: Martinho da Vila / Rodolpho / Graúna
A Vila Isabel
Incorporada de Maíra
Se transforma em Deus supremo
Dos povos de raiz
Da terra kaapó
O Deus morava nas montanhas
E fez filhos do chão
Mas só deu vida para um
No templo de Maíra, sete deusas de pedra
Mas vida só pra uma
Destinada a Arapiá
Querumbim Tapixi guardava a deusa para ele
Que sonhova conhecer a natureza
Então ele fugiu
Da serra
Buscando emoções
E se encontrou com a mãe dos
Peixes, Numiá
Por ela Arapiá sentiu paixão
E quatro filhos Numiá gerou
Verão, calor e luz
Outono, muita fartura
Inverno, beleza fria
Primavera, cores e flores
Para enfeitar o paraíso
Mas eclodiu a luta entre os dois amantes
Pelo poder universal
Vovó Maíra interferiu na luta
E atirou os dois pro ar
Pra lá no céu jamais poderem se envolver
Arapiá, Guaraci bola de fogo
E Numiá é Jaci bola de prata
E fez dos quatro netos governantes magistrais
Surgindo assim as estações do ano
compositores: Martinho da Vila / Ovídio Bessa / Azo
Valeu Zumbi
O grito forte dos Palmares
Que correu terras céus e mares
Influenciando a Abolição
Zumbi valeu
Hoje a Vila é Kizomba
É batuque, canto e dança
Jogo e Maracatu
Vem menininha pra dançar o Caxambu
Vem menininha pra dançar o Caxambu
Ô ô nega mina
Anastácia não se deixou escravizar
Ô ô Clementina
O pagode é o partido popular
Sarcedote ergue a taça
Convocando toda a massa
Nesse evento que com graça
Gente de todas as raças
Numa mesma emoção
Esta Kizomba é nossa constituição
Esta Kizomba é nossa constituição
Que magia
Reza ageum e Orixá
Tem a força da Cultura
Tem a arte e a bravura
E um bom jogo de cintura
Faz valer seus ideais
E a beleza pura dos seus rituais
Vem a Lua de Luanda
Para iluminar a rua
Nossa sede é nossa sede
De que o Apartheid se destrua
Vem a Lua de Luanda
Para iluminar a rua
Nossa sede é nossa sede
De que o Apartheid se destrua
Valeu
Valeu Zumbi
compositores: Rodolpho / Jonas / Luís Carlos da Vila
Vem de longo tempo o mesmo cantar
Se esta terra fosse minha, se esta terra
Eu iria semear, semear
Assim disse o português
Ao ver tanta riqueza neste chão
Quando os invasores aportaram
Com a sede louca da ambição
Cana-de-açúcar e Pau-Brasil
Uma delirante obsessão
(Brilhou)
Brilhou no ouro a cobiça
Levando os bandeirantes ao sertão
Com o progresso e a colonização
Era o índio massacrado sem perdão
(E o herói)
E o herói guarani
Gritou forte defendendo a sua terra
Mas de nada adiantou
Aquele grito de guerra
Se minha fosse esta terra
Das pedras nasceriam flores
Com sangue, suor e lágrimas
Cantou o negro em suas dores
Vindo lá das bandas do agreste
Terra seca do nordeste
O homem em busca de aventura
Quando a vontade mais pura do irmão
Era produzir no seu quinhão
(Se esta terra)
Se esta terra fosse minha
É a Vila a cantar
Que felicidade é dividir
Com igualdade pra reforma, reformar
Aprendeu-se a liberdade
Combatendo em Guararapes
Entre flechas e tacapes
Facas, fuzis e canhões
Brasileiros irmanados
Sem senhores, sem senzala
E a Senhora dos Prazeres
Transformando pedra em bala
Bom Nassau já foi embora
Fez-se a revolução
E a festa da Pitomba é a reconstituição
Jangadas ao mar
Pra buscar lagosta
Pra levar pra festa
Em Jaboatão
Vamos preparar
Lindos mamulengos
Pra comemorar a libertação
E lá vem maracatu, bumba-meu-boi, vaquejada
Cantorias e fandangos
Maculelê, marujada
Cirandeiro, cirandeiro
Sua hora é chegada
Vem cantar esta ciranda
Pois a roda está formada
Cirandeiro
Cirandeiro, Ó
A pedra do seu anel
Brilha mais do que o sol
compositor: Martinho da Vila
Ilhado na imaginação
Que mar de fantasia
O poeta vai cantando
Estórias tão sem história
De tristeza e alegria
No seu veleiro sem vela
Peixe que voa
Ave que é proa
Tem o barão, triste barão
Um homem sem reinado
Tem girassol reluzente
Tem leão Rei Coroado
Navegando, navegando
Navegando sem parar
Dedilhando sua lira
Fazendo o vento cantar
Em seus devaneios
Imagens diferentes
Cavalo todo de fogo
Mulheres metade serpente
Nesta ilha inventada
Procurando sua amada
Seu candelabro astro-rei
E a mulher imaginada
Desperta então o poeta
Clamando Orfeu
Clamando Orfeu
Uma luz nas trevas se acendeu
Mentira pra quem não crê
Milagre pra quem sofreu
compositores: Paulo Dragão / Rodolpho / Irany
Meu Deus
O grande criador adoeceu
Porque a sua geração já se perdeu
Quando acaba a criação
Desaparece o criador
Pra salvar a geração
Só esperança e muito amor
Então foram abertos os caminhos
E a inocência entrou no templo da criação
Lá os guias protetores do planeta
Colocaram o futuro em suas mãos
E através dos Orixás se encontraram
Com o Deus dos deuses – Olorum
E viram
Viram como foi criado o mundo
Se encantaram com a mãe natureza
Descobrindo o próprio corpo compreenderam
Que a função do homem é evoluir
Conheceram os valores do trabalho e do amor
E a importância da justiça
Sete águas revelaram em sete cores
Que a beleza é a missão de todo artista
Gbala é resgatar, salvar
E a criança é a esperança de Oxalá
Gbala, resgatar, salvar
A criança é a esperança de Oxalá
Vamos sonhar