Ao provar o seu batom
Fui deixando-me envolver
Mandei a razão pros ares
Ela me quis um Rondon
Mas diz que eu fui um Zumbi
Sensual rei dos Palmares
Recriando a criação
Despertei seu corpo tenso
Pr’as delicias do amor
Ela ficou tão feliz
Que serena adormeceu
Despertando me abraçou
E falou.
Bem, foi tão bom pra mim
E eu fiquei assim
Emocionado
Foi
Foi tão aderente
Sua boca quente
Num corpo suado
Foi um momento lindo
Quando dei por conta
Tinha me entregado
Eu quero ser
Quero ser paizinho
Quero ser filhinho
Quero muito mais
Eu quero ser
Quero ser todinho
Pra você, carinho
Vibração e paz
compositores: Zé Catimba / Martinho da Vila
Amor, amor mulher
Amor mulher, amor
Mulher, mulher amor
Mulher amor, mulher
Amor
Se estamos juntos, tu és única, mulher
Os longos beijos que te dou
Igual pra mais ninguém
Es quem produz o sêmen que eu dou pra ti
Só tu
Me pões em transe pra gritar como llá de Oxum
A tua sensualidade é que me faz viril
E o meu poligamo instinto fica tão fiel
O teu orgasmo
É poesia não metrificada
Exala um cheiro
Privilégio só de quem te amou
E os soluços
Põem o coração descompassado
Me faz um bem
O teu astral, quando eu estou carente
A tua alma-gêmea não tem par
Porque és impar
Pra ti fiz esta canção sem rima
Pra ti dizer
O quanto és
Um sonho blue
Mulher
E te falar
Que só tu és
Meu sonho azul
Amor
Amor, amor mulher
Amor mulher, amor
Mulher, mulher amor
Mulher amor, mulher
compositor: Martinho da Vila
Meu amor
Fica comigo mais um pouco
Se você partir
Vai me destruir
Vou acabar ficando louco
Se você partir
Eu vou sentir
Como se fosse uma planta
Arrancada do chão
Como se fosse criança
Querendo mamãe
Como se fosse uma flecha
Em qualquer coração
compositores: Gracia / Martinho da Vila
Ninguém conhece ninguém
Pois dentro de alguém
Ninguém mora
Há quem acorda sorrindo
E na mesma manhã também chora
Não há alguém tão ruim
Que não tenha uma boa qualidade
Ninguém atravessa idade
Somente em passo certo
Não há deserto sem água
E nem coração sempre aberto
Ninguém conhece ninguém…
Há mariposa noturna
De angelical semblante
E corpo deselegante
E é tão perfeito na dança
Braço que enlaçe o amado
É o mesmo que embala criança
Ninguém conhece ninguém…
Nunca se pode afirmar
Se alguém é assim ou assado
Quem hoje está no seu canto
Amanhã pode estar do nosso lado
E quem nunca foi de samba
A’inda vai ser do samba rasgado
Ninguém conhece ninguém…
1967, ano mais marcante dos meus trinta e dezessete. O quarteto registra a menina moça, sem o ritmo do partido alto. O produtor Ismael Corrêa lança pela primeira vez o nome Martinho da Vila no disco do Trio ABC, que grava o Ninguém Conhece Ninguém. Pra eles, o meu abraço.
compositor: Martinho da Vila
Ê mana, ê mana
Ê mana, ê mana
Ê mana, irmana
U mana, mana, mana
Ê mana ê, ê mana ê, ê mana ê
Irmana
Mana Zoé, Benedita
Irmã Bené, Silva mana
Maninha é rainha ginga
Da irmã nação africana
Calaram irmã Anastácia
Mana Mahim foi lutar
E a raça aqui vai ser forte
Se todo mundo irmanar
Ê mana…
Mana do céu, chuva fina
Pra terra do lavrador
Mana da terra é o fruto
Mana do homem o amor
Irmã Namibia tá presa
Mas ainda vai se soltar
Ayoká é Janaína
Keianda, Iemanjá
Ê mana…
compositores: Martinho da Vila / Zé Catimba
Ciranda cirandinha
Vamos todos cirandar
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar
Fantasia
Deusa dos sonhos esteja presente
Nos devaneios de um inocente
Ó soberana das fascinações
Põe os seres do teu reino encantado
Desfilando para o povo deslumbrado
Num carnaval de ilusões
Na doce pausa
Dos folguedos infantis
Repousam a bola
E a bonequinha querida
No turbilhão do carrossel
Da alegre vida
Morfeu embala a criança tão feliz
Como num sonho encantador
Viaja ao mundo da fabulação
Terra da riqueza
E do fulgor
De tanta beleza
E do esplendor
Guiadas pela fada ilusão
Se juntam lendárias figuras
Personagens de leituras
Revividos na memória
Que ajusta ao imperfeito
A perfeição dos conceitos
De deleitosas histórias
Neste clima extasiante
O cortejo deslumbrante
Tudo envolve ao despertar
E ao mundo de verdade
Sem saber a realidade
Retorna o petiz a cantar
Ciranda, cirandinha
Vamos todos cirandar
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar
compositores: Gemeu / Martinho da Vila
Lâmpadas, faróis, lanternas
Archotes, velas, lampiões
Lamparinas, gambiarras
Holofotes e clarões
Clara luz que vem de longe
Brilhos no meu coração
Se eu estou na claridade
Quero luz pro meu irmão
Relampejos, pirilampos
Lua, sol, brilhante olhar
Céu vermelho além dos campos
Ofuscante cintilar
A beijos, abraços, afagos
O fogo do amor conduz
Como a estrela que guiou os magos
Pr’aquele que é sempre luz
Lâmpadas, faróis, lanternas…
compositores: João Donato / Martinho da Vila
Ciranda de roda
De samba de roda da vida
Que girou, que gira
Na roda da saia rendada
Da moça que dança a ciranda
Ciranda da vida
Que gira e faz girar a roda
Da vida que gira
Na cabeça do bom Santo Amaro
Que é da Purificação
E nas águas que rodeiam a ilha
De São Luiz do Maranhão
Na rodilha embaixo da talha
E em cima do torso da negra
Que ainda rebola
Nas curvas da vida da velha
Que ainda consola
A criança que chora
A roda é pra rodar na gira
Da vida que roda
Olha a roda, olha a roda
A roda é pra rodar na gira
Da vida que roda
Ciranda de roda
A Marrom me pede um samba pra gravar com a Bethânia. Fiquei perdido, falei com a Beta. Sai com ela pra tomar umas vodcas, e lá pras tantas ela me deu o mote: – Faz uma coisa girando, rodando, envolvendo assim como a cara da gente… Alô, Alcione, alô, Bethânia, recriei, criando pra vocês.
compositor: Martinho da Vila
Quem chuleia a verdade
Alinhava sem atar
Ai, coitado, errado nasceu
Pois se engana quem mente ao seu eu
Quem falseia e se nega
Se tropeçar ao negar
Se encharca no lodo
Se ateia mais fogo
Quem mente carrega
Às cegas penar
Qual seda falsa, a mentira não convence
Pois mais dia, menos dia
A verdade chega e vence
Bom cerzideiro jamais cose sem amor
E eu não uso sinhaninha
Que não tenha algum valor
Quem descose a realidade
Falsidade quer vender
Ai, que pena de quem borda o mal
Se aconselha ao menos um dedal
Minha mão no fogo por você não vou botar
A mentira é um remendo
E a verdade vai ficar
Meu lado negro pra você é um açoite
Quanto mais eu me ilumino
Pra você eu viro noite
Ai, que pena de quem cose o mal
Se aconselha ao menos dedal
Retrós e linhas, eu pesponto a minha dor
O tecido era bem frágil
Se puiu e se rasgou
E o amor é o amor do próprio amor
E o amor que pinta e borda
E recose o próprio amor
Convivo com a Alaíde Costa desde o tempo da Água Santa, Chave de Ouro, Aprendizes da Boca do Mato. Fiquei emocionado quando ela cantou o Retrós e Linhas numa festa negra no Circo Voador, com a mesma emoção registrada em disco. Um beijão, Chuvisca. Tomara que você goste da recriação.
compositores: Martinho da Vila / Hermínio Bello de Carvalho
Odilê, odilá
Que que vem fazer aqui, meu irmão
Vim sambar
Odilê, odilá
Que que vem fazer aqui, meu irmão
Vim sambar, obá
Entra na corrente
Corpo, mente
Coração, pulmão
Pra junto com a gente viajar
Na energia-som
Quem veio de longe atravessou raio e trovão
Pra cair no samba e receber a vibração
Odilê, odilá…
Com a negrada do Harlem, Jesus Cristo
Também vem
E pra sair do transe só com sino de Belém
Quem faz romaria e procissão, samba também
E quem tá comigo, tá com o povo do além
Odilê, odilá…
Quem samba, se sobe tem comba, tem gurufim
Teve um olho d’água
E um sorriso de marfim
Se volta beijada, é pigmeu ou curumim
Vira preto-velho pra sambar com a gente assim
Odilê, odilá…
Preta-velha bate pé, bate colhé, levanta pó
Dá marafo pro Odilé e solta logo seu gogó
Odilá de madrugada nem sem viola tá só
Pois tá com axá da velha nega preta, sua vó
Odilê, odilá…
compositores: João Bosco / Martinho da Vila
Um canto triste ecoou
E penetrou nos corações
O canto se haronizou
No dedilhar de violões
Ao que encontrou
Se misturou
Se enriqueceu
Se ritmou
E então ficou mulato assim
Extasiando as multidões
Este canto é da senzala, irmão
Chegou aqui com a escravidão
E cresceu no trabalho dos canaviais
É mais que um canto, é uma oração
Este canto é muito forte, irmão
É um forte traço de união
É linda a tua história
É a história deste canto
É a mesma história desta nação
E como é bom pra se entregar
Descontrair nos carnavais
Pular nos blocos e salões
E nos pagodes, tão legais
Me faz chorar, me faz sorrir
Me faz sofrer, me faz vibrar
Sem ele, eu sei, não viverei
É como o amor, é como o ar
Calangos, baiões, carimbós e fandangos
Batuques, xaxados e jongos
Misturas do povo de cá
Uma das minhas alegrias foi o LP Traço de União, que Beth Carvalho me dedicou. Obrigado, Betoca. Recriei pra você.
compositores: João Bosco / Martinho da Vila
Se o teu corpo se arrepiar
Se sentires também o sangue ferver
Se a cabeça viajar
E mesmo assim estiveres num grande astral
Se ao pisar o solo
O teu coração disparar
Se entrares em transe
Sem ser da religião
Se comeres fungi quisaca e mufete de cara-pau
Se Luanda te encher de emoção
Se o povo te impressionar demais
É porque são de lá os teus ancestrais
Podes crer
No axé dos teus ancestrais
compositores: Rosinha de Valença / Martinho da Vila