Minha viola
Tá chorando com razão
Com saudade da marvada
Que roubou meu coração
Eu não respeito cantador que é respeitado
Que no samba improvisado me quiser desafiar
Inda outro dia fui cantar no galinheiro
E o galo a noite inteira sem vontade de cantar
Nesta cidade todo mundo se acautela
Contra a tal febre amarela que não para de matar
E a dona Chica que anda atrás de mal conselho
Pinta o corpo de vermelho, pra amarela não pegar
Minha viola
Tá chorando com razão
Com saudade da marvada
Que roubou meu coração
Eu já jurei de não jogar com seu Saldanha
Que diz sempre que me ganha no tal jogo de bilhar
Sapeca o taco nas bolas de tal maneira
Que eu espero a noite inteira pras bola carambolar
Conheço um velho que tem a grande mania
De fazer economia pra modelo dos seus fio
Não usa prato, nem moringa, nem caneca
E quando senta é de cueca pra não gastar os fundio
Minha viola
Tá chorando com razão
Com saudade da marvada
Que roubou meu coração
Eu tive um sogro cansado dos regabofe
Que procurou Voronoff, dotô muito creditado
E andam dizendo que o enxerto foi de gato
Pois ele pula de fato miando pelos teaidos
Aonde eu moro tem um bloco dos Filantes
Que quase que a todo instante, um cigarro vem filar
E os danados vem bancando o inteligente
Diz que tão com dor de dente, que o cigarro faz passar
compositor: Noel Rosa
Boa noite, Vila Isabel
Quero brincar o carnaval
Na terra de Noel
Boa noite, diretor de bateria
Quero contar com sua marcação
Boa noite, sambistas e compositores
Presidentes e diretores
Pra Vila eu trago toda a minha inspiração
Quero acertar com o diretor de harmonia
E as pastoras o tom da minha melodia
A a a a a a a a a
Ó ó ó ó ó ó ó ó ó
Ô ô ô ô ô ô ô ô ô
Laralá, larará, la ra ra
Passistas, mestres-sala, ritmistas
Quero ver samba feito com animação
Eu quero ver as alas reunidas
Baianas brilhando no carnaval
Eu quero ver a Vila destemida
Fazendo evolução monumental
Nem a lua foi pra casa descansar lará, lará
E já vem raiando o dia
E a lua vadia ainda passeia no céu, porque
Passou uma noite de samba em Vila Isabel
Vila Isabel,
Bem ali entre Maracanã, Grajaú e Salgueiro
É uma escola de samba famosa neste Brasil inteiro
Vila Isabel, Vila Isabel
Considerada por todo sambista verdadeiro
Vem pro samba, vem sambar
Vem pro samba meu amor
Que o samba na Vila tem muito mais sabor
O nosso samba é malemolência
Nossas cabrochas olha o passo, veja a cadência
Os ritmistas são caprichosos e não saem do tom
O samba é belo, o samba é doce, o samba é bom
O nosso samba não se aprende no colégio
É privilégio que Noel Rosa nos deixou
Mas se você nunca foi a um samba na Vila
Então esteja certa que também nunca sambou
Mas vem pro samba vem sambar
Vem, vem pro samba meu amor
Que o samba na Vila tem muito mais sabor
Quando o ensaio começar,
Quando o ensaio começar, eu vou te levar na Vila pra ver
Vais ouvir um samba diferente
E sambar com muita gente
Isso é que nos dá prazer
Eu fui lá na mangueira, gostei
No Império Serrano também
Eu fui na Portela e o samba estava pra lá de bom
Num Domingo de folga que eu tive
Eu subi fui a Padre Miguel
Mas voltei radiante pro samba vibrante de Vila Isabel
compositores: Martinho da Vila / Noca / Charlote / Diógenes / Zé Branco / Lolote
Santo Antônio Padroeiro
Somente agora alguém lembrou
Que do alto da colina
É você que ilumina o meu amor
Isabel é o nome dela
Minha doce Cinderela
Que ganhou meu coração
Hoje sou o seu guerreiro
Minha arma é um pandeiro
Minha reza é uma canção
Vila Isabel
Sabiá cantou
Nos oitis do Boulevard
Desce do morro menino
Menino vem vadiá
Ai meu Santo Antônio
compositores: Rodolpho / Jorge King
Na aba do meu chapéu
Você não pode ficar
Porque, meu chapéu tem aba curta
Você vai cair e vai se machucar
Na aba,
Eu compro a cerveja, você pede um copo
E bebe logo
Eu compro cigarro, você pede um
Como você pede um
Mando vir um salgado, o senhor come tudo
Parece que nunca comeu
Pede tudo que vê, tu es um 171
Um tremendo 171
Eu não nasci pra Coronel
Coronel saia da aba do meu chapéu
Você passa por mim e pergunta zombando,
Passa zombando e me diz:
– Uns e outros maneiro, como é que é?
Como é que é?
Para o seu bem estar fique logo sabendo
Olha seu coisa ruim,
É que lá no Macaco não tem Zé mane
Não mora mane
Lá tendinha do Zé co Caroço
Será que o senhor não se lembra ?
Paguei a despesa e ficaste com o troco
Até o hoje não me devolveu
Olhe bem que a massa está te sacando
Como está
De repentemente o bicho tá pegando
Como o bicho tá pegando
É que sou do bairro de Noel
Seu nome é Vila Isabel
Vai saindo da aba do meu chapéu
compositores: Ney Silva / Paulinho da aba / Trambique
Meu bem,
Não leve a mal
A Vila é a rival entre nós dois
Eu te amo, te adoro te quero demais
Mas sem meu samba eu não posso viver
Procure entender
Se você me aceitar do jeito que sou
Viverá eternamente o nosso amor
Só se você me aceitar
Se você me aceitar do jeito que sou
Viverá eternamente o nosso amor
O samba começa na Praça
Cantado com graça e batido na mão
Num boteco na Petrocochino
O partido alto é a grande atração
Se eu chegar de madrugada
Não fique zangada, sambista é assim
No Saci fiz esse samba
Pra você cantar pra mim
Olha meu bem,
O samba é a minha verdade
Meu verso é pureza
Você é o tema
E o ar que eu respiro
E onde se inspira o meu poema
Não quero ver nos teus olhos
Um sofrimento constante
Você é meu amorzinho
Mas a Vila é minha amante
Olha meu bem
compositores: Rodolpho / Jorge King / Tuninho 70 / João Quadrado
A grande paixão
Que foi inspiração
Do poeta é o enredo
Que emociona a velha-guarda
Lá na comissão de frente
Como a diretoria
Glória a quem trabalha o ano inteiro
Em mutirão
São escultores, são pintores, bordadeiras
São carpinteiros, vidraceiros, costureiras
Figurinista, desenhista e artesão
Gente empenhada em construir a ilusão
E que tem sonhos
Como a velha baiana
Que foi passista
Brincou em ala
Dizem que foi o grande amor de um mestre-sala
O sambista é um artista
E o nosso Tom é o diretor de harmonia
Os foliões são embalados
Pelo pessoal da bateria
Sonho de rei, de pirata e jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
Mas a quaresma lá no morro é colorida
Com fantasias já usadas na avenida
Que são cortinas, que são bandeiras
Razão pra vida tão real da quarta-feira
É por isso que eu canto
compositor: Martinho da Vila
Quando o sonho acontecer
E todo o morro descer
Numa tremenda euforia
Eu, vou tentar me segurar
Pra não gritar, nem chorar
E nem cair na orgia
Vou, subir o morro sozinho
Olhar o céu de pertinho
E procurar a estrela
Onde estão a Gilda pretinha
O seu Eurico e o Birica
Primeiro compositor
Vou rezar pro seu China
O velho sonhador
Que criou a tal Vila bonita que me encantou
E quando a estrela sumir
O dia amanhecer
Quero encontrar a Peti
Pra com a Gilda branquinha
Ir bater nas tendinhas
Só então vou cantar
Vou beber vou comemorar
Só então vou cantar
Vou beber vou comemorar
compositores: Ruy Quaresma / Martinho da Vila
Parabéns, Vila Isabel, parabéns Vila Isabel
Parabéns, Vila Isabel, parabéns Vila Isabel
Fala mulato nesse pedaço de couro
Manda parar todo o mundo que nosso batuque vale ouro
Ô escolas de samba de todo o Rio de Janeiro
Ponham as pastoras na rua
Porque nosso samba é o primeiro
Mas ele
Ele tirou do azul o mais azul
Ele pegou do branco a paz maior
E o canto mais negro que o passarinho no céu
E daí criou Vila Isabel, Vila Isabel
E daí criou Vila Isabel
E vieram poetas pra perpetuar a criação
E esta beleza toda é uma das razões do meu viver
Eu agradeço a ele do fundo do coração
Pela graça divina de à Vila eu pertencer
E repetirei sempre com a mesma emoção
Serei Vila Isabel até morrer
Serei Vila Isabel até morrer
Renascer,
Vamos renascer das cinzas
Pintar de novo arvoredo
Bom calor nas mãos unidas
Na cabeça de um grande enredo
Ala dos compositores
Mandando um samba no terreiro
Cabrocha sambando, cuíca roncando, viola e pandeiro
No meio da quadra pela madrugada um senhor partideiro
Sambar na avenida de azul e branco é o nosso papel
Mostrando pro povo que o berço do samba
É em Vila Isabel
Tão bonita,
Tão bonita a nossa Escola
E é tão bom cantarolar
Lá, lá, lá, lá, lá, lá
Lá, lá, lá
Mais vem,
Vem descobrir os segredos do samba
Vem com a gente cantarolar
Vem, traz a corda e a caçamba
Vem com toda sua muamba
Pra no embalo da Vila se embalar
Vem, ser igual ao negro brasileiro
Que também já penou no cativeiro
Mas sempre foi de lutar e cantar
Que eu já deixei furo, deixei
Que eu fui castigado, eu sei
Mas no ano que passou mostrei
Que temos muito pra dar
E nesse ano é preciso confirmar
No primeiro lugar
Tá bonita a nossa Escola
É tão bom cantarolar
Lá, lá, lá, lá, lá, lá
Lá, lá, lá
compositores: Ataulfo Alves / Alcebíades Nogueira / Martinho da Vila / Luiz Carlos da Vila
À minha direita raia um sol vermelho e branco
À minha esquerda um verde e rosa vem dormir
À minha frente ecoa um grito de gol
Atrás de mim dorme a Floresta do Andaraí
Entre o Engenho Velho e o Novo ouço cantar
Um tangará nas ramas dos oitis do Boulevard
Aqui foi que os Drummond, os Rudge e os Maxwell
Vieram semear Vila Isabel, vieram semear Vila Isabel
Vila lá vou eu
Camisa aberta, ventre livre, chinelo nos pés
Da Barão de São Francisco, tomo um chopp no Petisco
Faço uma fé no Cem Réis
Vila, Vila eu vou
Por entre as notas das calçadas musicais
Vou seguindo as partituras
De tão sábias criaturas
Que fizeram sambas imortais
Nossos laços são tecidos
Pela flor dos tempos idos
Nos antigos carnavais
compositores: Ruy Quaresma / Nei Lopes
A noite se enfeitou de alegria
Surgiram mil estrelas lá no céu
Nascia um poeta lá no morro
Um bamba, um menestrel lá ra ra
Sua arte que é tão imensa
Em forma de recompensa
Hoje venho a exaltar
A sua fé que é tão grande
A cada dia se expande
Aumentando o seu valor
Paulo Brazão
É Paulo Gomes de Aquino
Um grande homem com coração de menino
Vila Isabel
És manchete de revistas e jornais
És um berço de poetas imortais
Mundo inteiro te conhece e não te esquece
Vila Isabel
És manchete em revistas e jornais
És um berço de poetas imortais
Mundo inteiro te conhece e não esquece
Vila Isabel
Para o artista és um tema ideal
Tens arte e poesia
Teus sambas têm magia
Tu és a imagem pura do carnaval
Vila Isabel
Serei eternamente o teu cantror
Canto e canto de alegria o teu louvor
Fevereiro a fevereiro com meu pandeiro
Vila Isabel
De pastoras tão bonitas, meu senhor
Tu és um festival de luz e cores
Inspirando amor
O sereno está caindo
Em toda Vila Isabel
É o céu que está chorando
Com saudade de Noel
Vila Isabel, Vila Isabel
Serei eternamente teu cantor
Canto e canto de alegria em teu louvor
Fevereiro a fevereiro com meu pandeiro
Vila Isabel
Das pastoras tão bonitas meu senhor
Tu és um festival de luz e cores
Inspirando amor
compositores: Jorge King / Martinho da Vila / Nerly Miranda / Dunga
Sonhei
Que estava sonhando um sonho sonhado
O sonho de um sonho
Magnetizado
As mentes abertas
Sem bicos calados
Juventude alerta
Os seres alados
Sonho meu
Eu sonhava que sonhava
Sonhei
Que eu era o rei que reinava como um ser comum
Era um por milhares, milhares por um
Como livres raios riscando os espaços
Transando o universo
Limpando os mormaços
Ai de mim
Ai de mim que mal sonhava
Na limpidez do espelho só vi coisas limpas
Como uma lua redonda brilhando nas grimpas
Um sorriso sem fúria, entre réu e juiz
A clemência e a ternura por amor da clausura
A prisão sem tortura, inocência feliz
Ai meu Deus
Falso sonho que eu sonhava
Ai de mim
Eu sonhei que não sonhava
Mas sonhei
compositores: Martinho da Vila / Rodolpho / Graúna